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Diogo Schelp

O que acontece se as tropas americanas deixarem o Iraque

Diogo Schelp

06/01/2020 15h11

Irã

Manifestante segura foto do aiatolá Ali Khamenei com o general Qassem Soleimani, morto em ataque americano no último dia 2. (Foto: WANA/Nazanin Tabatabaee via Reuters)

O parlamento iraquiano votou, neste domingo (5), pela expulsão de tropas estrangeiras do país, como resposta ao ataque aéreo americano que matou o general iraniano Qassem Soleimani e o iraquiano Abu Mahdi al-Muhandis, um dos chefes da milícia Unidades de Mobilização Popular, em Bagdá, no último dia 2. O objetivo da votação é forçar o primeiro-ministro iraquiano Adil Abdul Mahdi a expulsar as forças americanas em operação no Iraque. Em resposta, o presidente Donald Trump ameaçou impor sanções econômicas contra o Iraque e cobrar do país o investimento feito em bases militares. 

Nesta segunda-feira (6), chegou a circular a notícia de que o general americano responsável pela coalizão antiterror no Iraque entregou uma carta às autoridades do país anunciando os preparativos para a retirada, mas a informação foi negada por Mark Esper, secretário de Defesa americano, em seguida.

Mas qual é a real chance de as forças americanas se retirarem do Iraque? O que isso significaria para os Estados Unidos e para os países da região?

Comecemos pela primeira pergunta.

Do ponto de vista legal, a retirada das tropas americanas do Iraque é simples. Não há nenhuma lei ou acordo formal obrigando o Iraque a aceitar a presença dos militares dos Estados Unidos em seu solo, assim como os americanos não estão comprometidos a permanecer.

Atualmente, cerca de 5.000 militares americanos estão no Iraque graças a um consentimento dado pelo governo iraquiano em 2014, quando o grupo terrorista Estado Islâmico dominou vastas áreas do país. A presença das tropas americanas, que haviam se retirado do país no governo de Barack Obama, foi solicitada para ajudar no combate — por meio de treinamento, consultoria militar e bombardeios aéreos — aos fundamentalistas, que pretendiam instalar um Califado ao longo dos rios Tigre e Eufrates.

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O consentimento foi dado através de uma singela troca de correspondências entre os governos do Iraque e dos Estados Unidos. Para revertê-lo, bastaria ao primeiro-ministro iraquiano solicitar a saída das tropas americanas. Para Trump, uma canetada também seria o suficiente para ordenar a retirada, se ele assim decidisse.

Trump já vem falando em retirar as tropas do Iraque há muito tempo. Mas é duvidoso que o faria em um contexto em que pareceria estar cedendo à pressão do parlamento iraquiano, dominado por aliados do Irã.

A não ser que decida aproveitar a ocasião para cumprir a promessa de campanha de reduzir a presença de soldados americanos no exterior — e encontre uma maneira de fazê-lo sem passar recibo de frouxo —, Trump dificilmente aceitaria a exigência iraquiana de retirar suas tropas do país.

É possível fazer isso sem que a presença das tropas ganhe a conotação de uma ocupação militar ilegal. Afinal, uma decisão do governo iraquiano de exigir a saída americana pode não ter efeito imediato, pois seria seguida de uma fase de negociações para definir um cronograma para que isso aconteça.

Os Estados Unidos podem forçar um cronograma demorado de retirada e, quando estiver próximo do prazo, trabalhar para adiá-la ainda mais, até que o assunto se perca no tempo e desabe na lista de prioridades do governo iraquiano.

O governo americano também pode usar a ocasião para tentar negociar um novo status para a presença de suas tropas no país, pois as operações atuais já são de treinamento, inteligência e consultoria, e não propriamente de combate.

O impacto de um retirada

A segunda pergunta, o que a retirada das tropas significaria para os países envolvidos, é importante porque as respostas ajudam a entender o possível desenrolar do conflito entre Estados Unidos e Irã.

A medida tem um impacto diferente para cada país:

  • Irã — Forçar a retirada das tropas americanas no Iraque era prioridade de Qassem Soleimani. Ou seja, se ela ocorrer, o general iraniano terá uma vitória póstuma. O governo iraniano verá da mesma forma. O Iraque é um país de maioria xiita, a mesma corrente do islamismo que predomina no Irã, e os aiatolás há muito tempo trabalham para ampliar sua influência no país. Com os americanos fora do território, o vácuo de influência será ocupado parcialmente pelo Irã, a exemplo do que vem ocorrendo na Síria.
  • Iraque — Encerrar a presença militar americana, que já dura 17 anos quase sem interrupção, é evidentemente um objetivo legítimo de um país que busca recuperar sua soberania plena. Mas, do ponto de vista prático, o Iraque tem muito a perder com a expulsão dos americanos. Primeiro, porque nem todos os iraquianos, inclusive entre os políticos, se sentem atraídos pela ideia de ver o Irã ampliar sua influência no país. Dos 328 integrantes do parlamento iraquiano, apenas 170 participaram da votação que exigiu a expulsão das tropas americanas. Os outros são, em grande parte, parlamentares sunitas e curdos. Esses números expressam a divisão que há na sociedade iraquiana quanto às intenções do Irã. Ainda que o voto dado pelo parlamento neste domingo seja pela expulsão de qualquer força estrangeira no país, no momento em que sentirem que podem estar tendo que escolher entre Irã e Estados Unidos, muitos vão preferir os americanos. Segundo, porque o governo iraquiano precisa dos americanos para garantir a segurança ou, no mínimo, evitar que o país volte a despencar no caos das disputas sectárias ou do retorno do Estado Islâmico. O país já pediu para os americanos saírem antes e o resultado não foi bom: o exército fundamentalista chegou perto de conquistar Bagdá. Terceiro, o Iraque depende financeiramente dos Estados Unidos. Apenas em 2016 e 2017, o país recebeu 9 bilhões de dólares em ajuda dos americanos. Trocar isso por sanções, como ameaçou Trump, seria um péssimo negócio.
  • Estados Unidos — O aumento da influência iraniana no Iraque em si já seria uma derrota dos americanos para os aiatolás. Mais do que isso, deixaria os iranianos livres para efetivamente controlar um território que faz fronteira com a Arábia Saudita, principal país árabe aliado dos americanos e maior produtor de petróleo do mundo. Os sauditas acusam o Irã de ter bombardeado instalações petrolíferas em seu território no ano passado. É de se imaginar o que os aiatolás poderiam fazer se suas forças especiais estivessem livres para agir dentro do Iraque. Os Estados Unidos também perderiam muitos dos recursos para angariar informações sobre a ameaça de grupos terroristas e do Irã. Ou seja, o trabalho das agências de inteligência americanas ficaria seriamente prejudicado. Além disso, os Estados Unidos acabaram de reduzir sua atuação militar da Síria e a presença no Iraque era estratégica para essa mudança. Sair do Iraque significaria ter que rever toda a operação americana na Síria.
  • Rússia e China — Ambos os países criticaram o assassinato de Soleimani em bombardeio realizado por um drone americano. A consequente saída americana do Iraque confirmaria algo que a Rússia já vem prevendo há algum tempo, que é a retração da influência dos Estados Unidos no Oriente Médio. Os russos já fincaram um pé com firmeza no conflito sírio e podem expandir seu bedelho para outros países da região. Já os chineses estão há anos atuando silenciosamente, sem alarde, para tirar proveito comercial e político dessa retração. Ambos os países tentam se apresentar para os países da região como aliados mais confiáveis do que os americanos.

Não é um momento fácil para os Estados Unidos, mas obedecer à exigência de retirar as tropas do Iraque não é a decisão que melhor atende os interesses americanos na região. Em última instância, pode ajudar a acelerar o declínio do poder americano — aparentemente inevitável no longo prazo.

(Este post foi atualizado às 19h23 do dia 06/01/2020.)

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

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“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.