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A inércia que corrompe o multilateralismo

Diogo Schelp

29/01/2020 16h32

Trump e Bolsonaro

Trump e Bolsonaro (Imagem: Arte/UOL)

As transformações políticas da atualidade, verificadas tanto na esfera doméstica de muitos países como nas relações internacionais, podem ser compreendidas como uma reação ao intenso processo de integração global ocorrido nas últimas décadas no comércio, nas comunicações, no transporte, no fluxo de capitais, na cultura e na produção de bens.

Nos países em que se registra a ascensão política de projetos isolacionistas, como o Brasil e os Estados Unidos, isso ocorre pelas mãos de parcelas dessas sociedades que se sentem prejudicadas ou ameaçadas pelas rápidas transformações culturais e econômicas promovidas por essa integração global, ou seja, pela globalização. Ou, para usar um termo que procura descrever esse fenômeno como uma conspiração de caráter ideológico, o "globalismo" de que tanto fala o chanceler brasileiro Ernesto Araújo.

Tomando por base o conceito de "conhecimento compartilhado" discutido por Alexander Wendt no livro "Teoria Social da Política Internacional", pode-se dizer que esses movimentos reacionários (no sentido literal, de reação a mudanças) rompem com uma cultura de multilateralismo que veio sendo construída ao longo do século XX.

Afinal, as instituições internacionais funcionam com base em um "conhecimento compartilhado", ou seja, na crença em comum de que divergências geopolíticas e comerciais, por exemplo, podem e devem ser resolvidas por meio da arbitragem e das normas institucionais internacionais.

Ao iniciar uma guerra tarifária com a China, por exemplo, o presidente americano Donald Trump deixou de lado os mecanismos de arbitragem internacional e recorreu ao poder de uma nação de impor sua vontade sobre outra. O sucesso dessa estratégia, porém, ainda está para ser confirmado.

Os formuladores da política externa de países como os Estados Unidos e o Brasil acreditam que a atuação da ONU e de outros organismos multilaterais é pautada pela defesa de interesses globais, alheios aos interesses individuais das nações, como se essas instituições internacionais estivessem destacadas das vontades nacionais e a serviço de ONGs, empresas privadas ou, de maneira mais crua, de ideologias que pretendem provocar danos a determinados valores culturais e comportamentais que esses formuladores consideram caros.

As instituições internacionais, em cujas repartições atuam funcionários criados dentro desse ambiente de "conhecimento compartilhado" do multilateralismo, porém, demonstram estar perdidas, sem conseguir encontrar um rumo certo nesse cenário de isolacionismo, de imposição de vontades, de retomadas de fronteiras.

Ameaçadas, a resposta dessas instituições até agora tem sido de reafirmar, de novo e de novo, a importância desse "conhecimento compartilhado".

A cada tentativa de se ater aos fatos, às agendas pautadas pela ciência (como os esforços para combater o aquecimento global) e a princípios universais, como os direitos humanos; a cada tentativa dessas, portanto, as instituições internacionais são acusadas pelos adversários do multilateralismo de serem utópicas, de estarem comprometidas com ideologias fracassadas, ora denominadas de socialismo, ora de "politicamente correto", ora de "marxismo cultural".

A resposta das instituições internacionais às transformações políticas e identitárias atuais, portanto, reforça sua posição dentro do discurso isolacionista e nacionalista, como se elas pertencessem ao campo utópico da dicotomia entre idealismo e realismo descrita por E.H.Carr na obra "Vinte Anos de Crise".

Na realidade, porém, ocorre o contrário: as instituições internacionais é que perseguem um equilíbrio entre realidade, o que é possível fazer, e ideais elevados, enquanto os adversários do multilateralismo ficam combatendo moinhos de vento.

Uma iniciativa bem sucedida de colocar à prova, na prática, essa aversão ao multilateralismo é o esforço de algumas nações, no âmbito da União Europeia (mais notadamente a Alemanha), para avançar nas negociações e fechar um acordo de livre comércio com o Mercosul (em um momento em que o Brasil, por exemplo, tendia ao bilateralismo com os Estados Unidos e ao enfraquecimento do Mercosul).

O acordo entre Mercosul e União Europeia é o triunfo das instituições internacionais, do equilíbrio entre idealismo e prática, sobre o isolacionismo. Sua durabilidade, porém, é uma questão em aberto.

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Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

Diogo Schelp