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Diogo Schelp

Lula e Bolsonaro exageram papel do petista em acordo nuclear com Irã

Diogo Schelp

10/01/2020 13h37

Lula no Irã

Lula com o então presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, em Teerã, em 2009 (Foto: Atta Kenare/AFP)

O ex-presidente Lula e o seu ex-chanceler Celso Amorim publicaram nesta sexta-feira (10) um artigo no jornal britânico The Guardian em que afirmam ter ajudado a buscar a paz entre Estados Unidos e Irã. O texto vem a público dois dias depois de o atual presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, afirmar que Lula, quando ocupava o Palácio do Planalto, defendeu o programa nuclear iraniano.

Tanto Lula quanto Bolsonaro, cada qual para provar um argumento diferente, distorcem os fatos ou omitem detalhes importantes ao retratar o papel do petista nas negociações para resolver o impasse do programa nuclear iraniano, em 2009 e 2010.

Bolsonaro disse na quarta-feira (8) que "o senhor Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto presidente da República, ele esteve no Irã, e defendeu que aquele regime pudesse enriquecer urânio acima de 20%, que seria para fim pacífico". No dia seguinte, Bolsonaro postou a manchete de um reportagem de 2009 que dizia: "Ao lado de Ahmadinejad, Lula defende democracia e direito do Irã a desenvolver energia nuclear".

Dessa forma, Bolsonaro insinuou que Lula atuou contra os esforços de europeus e americanos para conter o programa nuclear iraniano, que todos acreditavam ter fins bélicos. Na realidade, a malfadada proposta do governo brasileiro na ocasião era que o Irã enviasse urânio com baixo nível de enriquecimento para a Turquia e recebesse em troca uma quantidade menor de urânio enriquecido a 20% dos Estados Unidos e de países europeus, para uso civil.

Seria justamente uma forma de evitar que o Irã adquirisse a capacidade de enriquecer urânio a níveis compatíveis com o uso em uma bomba atômica.

Esses eram, em linhas gerais, os termos da Declaração de Teerã, costurada pelo Brasil e pela Turquia em negociação com o Irã e divulgada em 17 de maio de 2010. 

No dia seguinte, porém, a então secretária de Estado americana, Hillary Clinton, ligou para o governo brasileiro desautorizando o acordo. Foi uma humilhação de escala global para a diplomacia brasileira.

Lula e Amorim, no artigo do Guardian, apresentam uma versão magnânima do episódio.

Eles dizem que realizaram conversas com o governo americano e com autoridades iranianas "na tentativa de construir a paz" e que o pedido para que o Brasil entrasse nas negociações havia sido feito pelo então presidente americano Barack Obama às margens de uma cúpula do G8.

Não é o que diz um livro muito esclarecedor sobre o episódio, "Aposta em Teerã" (editora Objetiva), escrito por Luiz Felipe Lampreia e publicado em 2014. Na obra, Lampreia, que foi chanceler no governo de Fernando Henrique Cardoso, demonstra que Amorim entendeu de maneira equivocada as conversas com Obama e uma carta que o presidente americano enviou a Lula em 2010, quando as negociações de brasileiros e turcos com os iranianos já estavam avançadas.

Em um dos trechos do livro, Lampreia escreve (os esclarecimentos entre parênteses são meus):

"Pela relevância dessa carta, entrevistei Gary Samore, que foi um dos protagonistas da política de não proliferação nuclear da administração norte-americana entre 2009 e 2012. Como special advisor do presidente, ele teve forte participação na referida carta. Samore disse-me que, em reuniões privadas entre Obama, Lula e Erdogan (Recep Erdogan, presidente turco), às margens da cúpula sobre segurança nuclear (em abril de 2010), teve a impressão de que a iniciativa do Brasil e da Turquia fora bastante bem recebida. Porém, enfatizou Samore, 'isso é bem diferente de dar um mandato para substituir as grandes potências no assunto'."

Segundo Lampreia, o governo Lula "demonstrou um excesso de voluntarismo" no episódio do acordo com Teerã. Havia sinais suficientes de que a iniciativa ia dar com burros n'água. Antes de embarcar para o Irã, em 2009, Lula visitou o então presidente russo Dmitri Medvedev, que o avisou que o "jogo já estava jogado" e que novas sanções econômicas seriam impostas ao Irã (como de fato ocorreu depois do anúncio da Declaração de Teerã).

Além disso, durante as conversas em Teerã, os negociadores iranianos perguntavam repetidamente se os americanos endossavam os termos do acordo. Segundo Lampreia, Amorim garantia que sim. Como demonstrou o depoimento de Samore ao autor, esse não era o caso.

O governo brasileiro tinha boas intenções, mas superestimou sua capacidade de lidar com questões de segurança global distantes da realidade latino-americana. Uma avaliação superestimada que, como demonstra o artigo de Lula e Amorim no Guardian, não se dissipou.

*  *  *

Em novembro de 2014, Lampreia — que faleceu em fevereiro de 2016 — gentilmente me convidou para almoçar, com o intuito de agradecer por uma resenha que eu havia feito do seu livro. Conversamos bastante sobre o acordo nuclear entre Brasil, Turquia e Irã e outros temas de política externa. Lampreia, como não podia deixar de ser, tinha um grande estoque de histórias de bastidores da diplomacia brasileira.

É uma pena que ele não esteja mais por aqui. Seria interessante conhecer a análise que ele faria da postura do governo de Jair Bolsonaro diante da atual crise entre Estados Unidos e Irã.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.