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Deixem Regina Duarte trabalhar

Diogo Schelp

29/01/2020 18h28

Regina Duarte

A atriz Regina Duarte, nova secretária de Cultura do governo Bolsonaro (Foto: Jorge William/Agência O Globo)

Regina Duarte foi a primeira vítima da polarização política criada pelo petismo. Em 2002, ela foi massacrada pelos colegas da classe artística e pela esquerda em geral por ter dito, em mensagem gravada para a propaganda eleitoral do então candidato presidencial José Serra (PSDB), que tinha medo de que Lula (PT) pudesse ser eleito, como de fato ocorreu. A atriz foi chamada de terrorista por manifestar uma preocupação que, vista em retrospecto, não tinha nada de absurda.

No poder, o PT aprofundou a polarização radicalizada, selecionando o PSDB como inimigo absoluto e adotando a lógica segundo a qual a única posição política aceitável era a adesão automática e acrítica ao seu projeto de poder. Esse processo se intensificou quando surgiram as primeiras revelações do escândalo do Mensalão.

A polarização e a corrupção desvairada dos anos petistas fizeram emergir o bolsonarismo, deixando o PSDB pelo caminho.

O governo Bolsonaro perpetua a intolerância política inaugurada pelo PT — até porque não existe polarização sem extremos. Mas Regina Duarte, que acaba de aceitar o convite para ser a nova secretária de Cultura de Bolsonaro, não está entre os apoiadores do presidente que alimentam essa polarização.

Ela não é fascista, como agora dizem seus detratores, atualizando o léxico dos xingamentos políticos. Em suas entrevistas recentes, vislumbra-se a defesa da pluralidade — não só na política, mas principalmente na cultura, que é o que importa, considerando-se o cargo que passará a ocupar.

Regina Duarte se diz contra a ingerência exagerada do Estado na promoção da cultura, em especial quando beneficia artistas já consagrados e bem estabelecidos. Mas também se opõe a usar critérios ideológicos para definir as prioridades na área. Ela até defendeu o filme "Bruna Surfistinha", uma das obras preferidas dos ataques bolsonaristas, em reunião recente com integrantes do governo.

Em qualquer circunstância, Regina Duarte na Secretaria de Cultura é um avanço em relação ao seu antecessor, Roberto Alvim, demitido após aparecer em vídeo replicando um discurso nazista.

Se a atriz vai se mostrar uma boa gestora, são outros quinhentos. Só o tempo dirá. Por ora, deve-se deixá-la trabalhar.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.