PUBLICIDADE
Topo

Relação de Bolsonaro com Trump, mais do que platônica, é masoquista

Diogo Schelp

11/02/2020 15h36

Trump e Bolsonaro

O presidente dos EUA, Donald Trump, e Jair Bolsonaro durante encontro em Washington, em março de 2019 (Foto: Carlos Barria/Reuters)

Com a notícia de que os Estados Unidos tiraram o Brasil de uma lista de países que desfrutavam de vantagens comerciais por serem economicamente emergentes, a relação "especial" do governo de Jair Bolsonaro com o de Donald Trump alcançou o grau de masoquismo.

O presidente Jair Bolsonaro gosta de explicar suas decisões políticas com metáforas que remetem a relacionamentos amorosos. Enquanto esperava a resposta da atriz Regina Duarte ao seu convite para que ela assumisse a Secretaria Especial da Cultura, Bolsonaro disse que eles estavam na fase de "noivado". O "casamento" seria consumado depois que ela dissesse "sim" e fosse oficializada no cargo.

O presidente também já falou em "namoro" para descrever sua relação com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e em "divórcio" para definir seu rompimento com o PSL.

Mas o coração de Bolsonaro, quando se trata de paixão política, mora ao norte, nos Estados Unidos. O presidente brasileiro não se cansa de se declarar para o colega americano, Donald Trump. Em setembro do ano passado, ele até ficou esperando em um corredor da sede da ONU em Nova York para encontrar-se com Trump e dizer-lhe, em inglês: "I love you" ("eu te amo"). Ao que Trump respondeu: "Bom te ver novamente."

Alguns analistas já definiram a relação de Bolsonaro com Trump como platônica. Afinal, Bolsonaro não apenas faz mais reverências e salamaleques verbais a Trump do que o contrário, como também adota políticas que beneficiam os Estados Unidos sem, contudo, obter concessões proporcionais de volta.

Carnes e foguetes

Bolsonaro permitiu aos Estados Unidos o uso da base de lançamento de foguetes em Alcântara, no Maranhão, instituiu a isenção de vistos para turistas americanos sem obter a recíproca para os brasileiros e apoiou, em nota oficial do Itamaraty, o ataque que matou um general iraniano no Iraque, no início de janeiro.

O Brasil também abdicou do status de nação em desenvolvimento junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), o que garantia tratamento diferenciado em negociações comerciais. O único afago que o Brasil recebeu em troca, até agora, foi o apoio formal para integrar a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) — e apenas porque a preferência pela Argentina caiu com a eleição de Alberto Fernández, crítico de Trump.

Bolsonaro não conseguiu sequer que os Estados Unidos derrubassem o veto à importação de carne bovina in natura brasileira, instituído em 2017 por causa da Operação Carne Fraca. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, está trabalhando para isso, por enquanto sem sucesso. O veto foi mantido no final do ano passado, meses depois de Bolsonaro pedir a Trump para revê-lo.

Na prática, a retirada do Brasil de sua lista de países em desenvolvimento amplia as situações em que os Estados Unidos podem investigá-lo e puní-lo quando há subsídios aos produtos exportados.

Apesar de serem decisões separadas e com implicações diferentes, o fato é que fica difícil o Brasil reclamar de ter sido excluído da lista americana depois de optar por abrir mão, de maneira unilateral, do status de nação em desenvolvimento na OMC.

Se bem que, em relações masoquistas, quem é que reclama?

Leia mais:

Obsessão por OCDE lembra ideia fixa de Lula por Conselho de Segurança

Lula e Bolsonaro exageram papel do petista em acordo nuclear com Irã

Política externa do PT: conveniência ideológica ou interesses empresariais?

Siga-me no Twitter (@DiogoSchelp) e no Facebook (@ds.diogoschelp)

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

Diogo Schelp