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Jair Bolsonaro, o aprendiz de Trump: a tática de desviar a atenção

Diogo Schelp

18/02/2020 15h59

Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

O presidente Jair Bolsonaro aprendeu com seu ídolo, o colega americano Donald Trump, uma tática infalível para ocultar más notícias: desvie a atenção da imprensa com comentários escandalosos sobre qualquer outro assunto. Tanto faz se forem mentiras deslavadas, meias-verdades ou insultos ultrajantes. O importante é que a reação seja poderosa o suficiente para ocupar espaços de outras manchetes e o tempo de jornalistas e comentaristas (como este que vos escreve).

Segundo um levantamento do jornal The Washington Post, Trump fez, em média, 5,5 afirmações falsas ou diversionistas por dia em seu primeiro ano de mandato. Já o Bolsonômetro da Folha de S.Paulo, que não inclui as declarações diversionistas, indica que o presidente brasileiro segue os passos do americano: em média, Bolsonaro fez uma afirmação falsa ou imprecisa a cada quatro dias em seu ano de estreia no governo.

De quais notícias ou assuntos Bolsonaro quis desviar a atenção com o seu ataque machista e difamatório contra a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha? "Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim", disse o presidente, rindo, a um incrédulo grupo de jornalistas reunidos para o tradicional "quebra-queixo", a entrevista improvisada que é concedida na saída do Palácio da Alvorada.

Não faltam más notícias para Bolsonaro querer esconder. A começar pelo inacreditável arquivamento, pela Comissão de Ética da Presidência, da acusação de conflito de interesses contra o secretário de Comunicação Fábio Wajngarten, sócio de uma agência de publicidade que presta serviços a emissoras de TV que se beneficiam com verbas do governo.

Tem também a greve dos funcionários da Petrobras, que já dura mais de duas semanas e ameaça o abastecimento de combustíveis no país. E não se pode esquecer das investigações sobre a morte do miliciano Adriano da Nóbrega, na Bahia. O presidente está claramente preocupado com o que pode vir a ser revelado, a ponto de ter sugerido que há o risco de as mensagens do celular de Nóbrega serem adulteradas para comprovar a ligação do falecido com ele e com seus filhos.

Diversionismos à parte

Como explicar, porém, o uso tão frequente, por parte do presidente, de insultos machistas quando se vê acuado? A resposta pode ser a mesma para o discurso sexista de Trump: trata-se de uma estratégia para assumir uma posição de superioridade. Trump decodifica a realidade exclusivamente do ponto de vista masculino e, por isso, se sente mais seguro quando tem como alvo uma mulher.

O mesmo pode ser dito de Bolsonaro. Basta lembrar que, em agosto do ano passado, optou por fazer comentários desabonadores sobre a aparência da primeira-dama francesa para atingir o presidente Emanuel Macrón. Bem ao estilo de Trump, como se pode ver em algumas das frases mais machistas do americano, a seguir:

  • "Bom trabalho do general Kelly por ter demitido rapidamente aquela cadela!" (Sobre Omarosa Manigault Newman, sua ex-assessora na Casa Branca.)
  • "Se Hillary Clinton não consegue satisfazer o próprio marido, como vai satisfazer o país?"
  • "Ela não é durona o suficiente para enfrentar o presidente russo Vladimir Putin ou o Isis. Ela é uma vadia mentirosa."
  • "Hillary é uma cadela sisuda. Antes era uma cadela estridente e agora é uma cadela bem sisuda, certo? Ela é fraca e possivelmente uma vadia. Uma verdadeira vadia."
  • "Olha esse rosto! Alguém votaria nisso? Você consegue imaginar isso, o rosto do nosso próximo presidente? Quero dizer, ela é uma mulher e eu não deveria dizer coisas ruins sobre ela, mas convenhamos, pessoal. Fala sério!" (Sobre Carly Fiorina, pré-candidata republicana.)

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Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

Diogo Schelp