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Como seria um governo do socialista Bernie Sanders nos EUA

Diogo Schelp

24/02/2020 04h10

Sanders

O pré-candidato Bernie Sanders comemora a vitória nas primárias de Nevada, no sábado, 22 (Foto: Callaghan O'hare/Reuters)

Bernie Sanders, de 78 anos, tornou-se oficialmente o favorito, no atual estágio das primárias do Partido Democrata, para se tornar o candidato que disputará as eleições presidenciais de novembro deste ano, enfrentando o presidente Donald Trump, do Partido Republicano.

No sábado (22), Sanders obteve uma vitória acachapante no estado de Nevada, depois de vencer também em New Hampshire e de empatar com Pete Buttigieg em Iowa. Além disso, ele agora lidera as pesquisas de intenção de voto para as prévias democratas com um vantagem de 12 pontos percentuais sobre o segundo colocado, o ex-vice-presidente Joe Biden.

O grande teste para saber se o favoritismo será mantido é a Super Terça, no dia 3 de março, quando quatorze estados realizarão as suas primárias para a definição do candidato democrata, incluindo dois grandes, Califórnia e Texas, que enviam um número significativo de delegados para a Convenção Nacional. É bastante provável que Sanders leve a melhor em ambos.

Boa parte das análises sobre as chances de Sanders se tornar o candidato democrata concentra-se em responder se ele é ou não o melhor candidato para derrotar Trump. Costuma-se dizer que Sanders seria um ótimo adversário para o presidente, pois é a opção mais à esquerda do Partido Democrata. Quanto mais polarizada a disputa, melhor para Trump — uma convicção dominante principalmente entre os estrategistas republicanos.

Basta Trump repetir ad nauseam que Sanders pretende implantar o socialismo nos Estados Unidos.

Aí está, porém, a pergunta verdadeiramente pertinente. Não se ele é capaz de derrotar Trump, mas como seria um governo de Sanders?

Usar a carta da "ameaça comunista" contra Sanders funcionaria porque, de fato, ele é o mais radical (à esquerda) dos pré-candidatos democratas.

Socialista democrata

Ele próprio se define como socialista democrata, algo entre o comunismo e a social-democracia. Com o passar dos anos, o veterano senador deixou de lado bandeiras impensáveis para os americanos, como a estatização dos meios de produção e a centralização econômica, mas suas propostas continuam sendo bastante intervencionistas e marcadas por um forte populismo fiscal.

Muitos dos problemas que ele promete resolver são reais, mas suas soluções levariam a um inchaço do Estado, a uma maior cobrança de impostos e a um rombo nas contas públicas.

Sua principal promessa é a prestação de saúde pública gratuita para todos os cidadãos — algo como o SUS brasileiro, só que muito maior e abrangente, pois seria acompanhado do fim dos planos privados de assistência médica.

Sanders também pretende gastar tubos de dinheiro (16,3 trilhões de dólares) para reorganizar a economia americana com o intuito de combater o aquecimento global, suspendendo inteiramente o uso de combustíveis fósseis dentro de 30 anos. Isso exigiria investir em uma nova matriz energética sustentada em fontes limpas, como a solar, a eólica e a geotérmica (que se utiliza do calor do subsolo), mas exclui, na proposta de Sanders, a nuclear.

Também inclui gastar 200 bilhões de dólares em iniciativas sustentáveis em nações pobres. Sanders dá ao pacote o nome de Green New Deal (Novo Acordo Verde), em referência ao New Deal, o conjunto de reformas do presidente Franklin Roosevelt da década de 30 do século passado.

Outros itens no programa de governo de Sanders são a ampliação das vagas em creches e na educação infantil, educação superior gratuita, a anulação das dívidas estudantis, a expansão de gastos assistencialistas, internet pública gratuita para todos e até o chamado "emprego federal garantido", em que qualquer cidadão disposto a trabalhar por 15 dólares por hora (o equivalente a 66 reais) teria uma vaga assegurada na máquina pública.

A conta, por favor

Tudo muito lindo e perfeito, não fosse por um detalhe: como pagar por esse paraíso?

No total, as promessas acima, incluindo o sistema universal de saúde e o Green New Deal, custariam quase 100 trilhões de dólares ao longo de dez anos. Isso representa cinco vezes o Produto Interno Bruto (PIB) anual dos Estados Unidos.

O gasto público federal nos Estados Unidos está, atualmente, em 20% do PIB. Com a gastança de Sanders, ele passaria a representar 70% da economia americana.

Sanders diz que vai pagar a conta com a elevação da alíquota máxima do imposto de renda federal de 37% para 52%, com o aumento da cobrança sobre a indústria de petróleo e gás natural, com o incremento na arrecadação que a nova matriz energética sustentável traria e com a redução dos gastos militares.

Ainda assim, a conta não fecha, segundo o Instituto Manhattan, de análises econômicas. Seria preciso aumentar dramaticamente a dívida pública, que já está entre as mais altas do mundo em proporção ao PIB.

Esse cenário de apocalipse financeiro nas contas públicas se torna menos provável, no caso de Sanders se tornar presidente, apenas porque é muito difícil aprovar políticas perdulárias no congresso americano. O presidente Barack Obama, por exemplo, penou para fazer passar o seu sistema de assistência médica, que custa aos cofres públicos um décimo do valor previsto para as promessas mais caras de Sanders.

Um governo de Bernie Sanders, em resumo, seria potencialmente o mais intervencionista e gastador da história recente americana. Trump vai explorar isso sem dó em uma eventual disputa entre os dois.

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Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

Diogo Schelp