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Resultado de testes para COVID-19 demora até 14 dias em SP, dizem médicos

Diogo Schelp

24/03/2020 03h58

Coronavírus

Coronavírus (Foto: iStock)

Os resultados dos testes para o diagnóstico de COVID-19, enfermidade causada pelo novo coronavírus, na rede pública de saúde do estado de São Paulo estão demorando entre sete e catorze dias para serem concluídos e entregues, segundo relato feito a este blog por médicos e funcionários que atuam em hospitais estaduais tanto da capital quanto do interior. O ideal, segundo os especialistas, é que os exames laboratoriais para confirmar ou não a doença não levem mais do que dois dias para a serem concluídos.

As análises das amostras são feitas pelo Instituto Adolfo Lutz, órgão do governo do estado que também recebe material coletado de pacientes com suspeita de coronavírus de outras regiões do país. Questionada por este blog, a Secretaria de Estado da Saúde explicou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o atraso se deve ao fato de que "o Instituto Adolfo Lutz está priorizando o processamento das amostras de casos graves e óbitos".

"Conforme medida definida pelo Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo e do Centro de Operações de Emergências (COE -SP), de acordo com a atual situação epidemiológica do Estado, os exames laboratoriais visando diagnóstico do vírus SARS-CoV-2 devem ser solicitados somente para pacientes internados graves ou críticos, para unidades sentinelas e profissionais de saúde. O teste diagnóstico não deve ser realizado em pessoas assintomáticas. A medida visa a otimização e uso racional dos testes, devido à situação pandêmica e a disponibilidade dos insumos em âmbito mundial", justifica a secretaria, em nota.

Mesmo as unidades de saúde que seguem essas recomendações, porém, estão obtendo os resultados com atrasos consideráveis. É o caso do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e do Hospital das Clínicas da USP, que têm recebido a confirmação dos testes uma semana, em média, depois do envio das amostras. No Hospital do Servidor Público Estadual, os resultados de todos os casos, inclusive os mais graves, de suspeita de coronavírus estão demorando entre sete e catorze dias para chegar. O Hospital das Clínicas da Unesp, em Botucatu, por sua vez, já enviou desde o início do mês mais de 100 amostras para o Instituto Adolfo Lutz, a maioria sem resposta, por enquanto.

Um médico residente no HC de Botucatu — que apresentou sintomas suspeitos depois de ir ao casamento da irmã da influenciadora digital Gabriela Pugliesi na Bahia, no dia 7 de março, onde vários convidados foram contaminados pelo coronavírus — só recebeu o resultado negativo do seu exame neste domingo (22), dez dias depois do envio do teste ao Adolfo Lutz. Por ser médico, ele se enquadra na categoria de "profissionais de saúde", que deveriam ter prioridade na realização do teste. Durante o tempo em que ele ficou sem resposta, precisou ficar em isolamento — sem poder trabalhar, portanto. Além disso, a população da cidade entrou em pânico, pois ele havia tido contato com vários pacientes e moradores antes de se tornar um caso suspeito.

Segundo o médico Alexandre Naime Barbosa, membro titular da Sociedade Brasileira de Infectologia, é compreensível que o laboratório do Instituto Adolfo Lutz esteja sobrecarregado, mas falta transparência e comunicação para admitir o problema. No caso da suspeita de que o médico de Botucatu estava infectado, por exemplo, se houvesse uma clareza de que o resultado ia sair só em dez dias, seria possível conter melhor a ansiedade da população local.

O infectologista também afirma que o "atraso na divulgação de resultados prejudica completamente o planejamento terapêutico. A gente nem conta mais com esse resultado. Vai tratando de forma sindrômica, como se o paciente já tivesse o resultado positivo, porque se for esperar o teste perde tempo hábil para tratar adequadamente."

Em nota, a secretaria de saúde minimiza a relevância do teste para a definição dos cuidados médicos: "Cabe ressaltar que o teste não impacta no tratamento da pessoa, que é feito apenas do ponto de vista clínico, e que o acompanhamento do cenário da COVID-19 também pode ser embasado no critério clínico-epidemiológico, assim como ocorre com outras doenças infecciosas."

Por fim, a demora nos exames para o diagnóstico do COVID-19 provoca uma subrepresentação nos dados oficiais. "Esses dados diários que a gente vê de casos novos do país todo são um retrato do passado, do dia em que a coleta foi feita — de alguns dias ou semanas atrás, a depender da demora na realização dos testes", diz Barbosa. Ou seja, não é possível conhecer verdadeiramente o estágio atual da pandemia no país, porque os casos não são confirmados com a rapidez necessária.

Nesta segunda-feira (23), o governo de São Paulo anunciou que dezessete laboratórios ligados à USP, com apoio do Instituto Butantan, formarão uma nova rede para ampliar o diagnóstico de coronavírus, com capacidade para realizar 2.000 testes por dia. A secretaria de saúde não informa quantas amostras estão acumuladas à espera de análise no Instituto Adolfo Lutz.

(Numa versão anterior dessa reportagem, o nome do Instituto Adolfo Lutz no sexto parágrafo estava incorreto e foi corrigido.)

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Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

Diogo Schelp