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Diogo Schelp

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Bolsonaro age como Trump na diplomacia, mas sem o poder do americano

Diogo Schelp

23/08/2019 16h10

Bolsonaro e Macron

Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron na cúpula do G20 em Osaka, no Japão, em junho (Foto: Presidência da República/Divulgação)

O presidente americano Donald Trump, como já está mais do que evidente, não gosta de ser contrariado. E, quando isso acontece, ele se dá o direto de desprezar, quando não cobrir de impropérios, quem se coloca no seu caminho. Esta semana, ele chamou de "nojenta" a recusa de Mette Frederiksen, primeira-ministra da Dinamarca, em negociar a venda da Groenlândia para os Estados Unidos. Dias antes, uma reportagem havia revelado que Trump tinha planos de adquirir o território autônomo, de olho nos recursos minerais e fósseis e na posição geoestratégica da maior ilha não continental do mundo, situada no Círculo Polar Ártico.

Não satisfeito com o insulto, Trump também cancelou uma visita à Dinamarca. Além do país ser aliado dos Estados Unidos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), tem um governo com uma agenda anti-imigração. Enfim, Trump consegue brigar até com quem tem tudo para ser seu melhor amigo.

Voltemos um pouco no tempo — não muito, apenas até junho deste ano — e relembremos a chegada do presidente Jair Bolsonaro em Osaka, no Japão, para a cúpula do G20, a reunião das lideranças dos países que compõem 80% do PIB mundial. Mal desembarcou, Bolsonaro tratou de criticar a chanceler alemã Angela Merkel pelo fato de ela ter demonstrado preocupação com a preservação da Amazônia.

Em seguida, a comitiva brasileira disse que uma reunião com o presidente Emmanuel Macron (que os franceses depois garantiram que sequer estava marcada) havia sido cancelada por que no dia anterior o governante europeu dissera que não assinaria acordo comercial nenhum com o Mercosul se o Brasil saísse do Acordo de Paris, que foi costurado para reduzir as emissões de gases do efeito estufa.

Bolsonaro e Macron acabaram conversando em um encontro informal, no qual o brasileiro se comprometeu a respeitar o acordo e chegou a convidar o francês para visitar a Amazônia.

Um mês depois, porém, Bolsonaro cancelou uma reunião que teria em Brasília com o ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian, e, em vez disso, foi cortar o cabelo — com transmissão ao vivo pela internet. Le Drian, que é calvo, ainda fez piada, dizendo que tinha dificuldade de entender a "urgência capilar" do presidente. Mas Bolsonaro já havia deixado bem claro o motivo do cancelamento, horas antes, ao dizer que não ia aceitar que o ministro francês falasse "grosso" com ele sobre a questão ambiental.

Desde então, Bolsonaro seguiu na toada de distribuir desaforos e grosserias contra autoridades estrangeiras sempre que as cobranças em relação ao meio ambiente brasileiro são retomadas. Fica evidente que ele está imitando o estilo Trump de fazer "diplomacia" (assim, mesmo, entre aspas, na falta de uma expressão mais adequada).

A questão é que Trump pode trocar farpas com os líderes do Reino Unido, da França, da Austrália, do Canadá, do México e com quem quer que ele queira, como já fez inúmeras vezes, mas, depois de idas e vidas, todos acabam tendo que tolerá-lo de alguma forma.

Afinal, Trump não está apenas à frente da maior potência militar do mundo. O país que ele governa também é o maior mercado para produtos importados do planeta, enquanto o Brasil fica umas 20 posições abaixo no ranking, e é onde se emite o dólar, a principal moeda das transações financeiras globais. Isso sem falar no poderio científico, cultural e geopolítico dos americanos.

Ou seja, quando Trump late, não está blefando. Ele realmente tem dentes para morder.

O Brasil, por outro lado, sempre foi capaz de defender seus interesses na arena internacional, inclusive na defesa de sua soberania, sem precisar exibir um porrete, ancorando-se na habilidade diplomática, na credibilidade de seus compromissos e no respeito à arbitragem.

Era assim também na questão ambiental, ainda que em muitos momentos da nossa história recente os índices de desmatamento tenham sido tão ou mais alarmantes do que agora.

Defender a soberania nacional não significa apenas proteger o território. No mundo atual, o conceito está muito mais relacionado a aspectos institucionais, culturais e comerciais, por exemplo. Quando o país se vê ameaçado de boicote comercial, como já vem sendo defendido em alguns países europeus, aí, sim, se tem uma ameaça concreta à soberania.

A enquadrada que Macron deu em Bolsonaro pode até não ter sido motivada pelas mais nobres intenções. Mas suas potenciais consequências para os interesses nacionais são bastante reais.

E isso não se resolve no grito.

 

(Uma versão anterior desse artigo afirmava que Bolsonaro criticou Merkel porque ela demonstrou preocupação com a preservação da Alemanha. Evidentemente, eu me referia à Amazônia, não à Alemanha. Obrigado ao leitor Tiago que apontou o deslize.)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.