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Ao pedir para a China investigar Biden, Trump cava a própria cova

Diogo Schelp

03/10/2019 16h02

Trump

O presidente americano Donald Trump (Foto: Leah Millis/Reuters)

Do ponto de vista do presidente americano Donald Trump, trata-se apenas de uma tática lacradora para dobrar as apostas. Na prática, porém, ele pode estar mesmo é cavando a própria cova. Nesta quinta-feira (3), enquanto a primeira testemunha da investigação que pode levar ao seu impeachment depunha na Câmara dos Representantes, Trump concedeu uma entrevista na Casa Branca em que disse que a China também deveria investigar os Biden.

Ora, o processo de impeachment foi iniciado por deputados democratas justamente porque o presidente pediu a um governo estrangeiro — no caso, o da Ucrânia — que reunisse informações danosas para Joe Biden, um dos políticos democratas que mais têm chances de enfrentar Trump nas eleições presidenciais do ano que vem.

A diferença é que o pedido para Ucrânia foi feito em privado, em uma conversa telefônica entre Trump e o presidente do país do Leste Europeu. Já a recomendação para a China foi feita publicamente.

Acuado

Trump já demonstrou em outras ocasiões que, quando acuado, defende-se contra-atacando. A questão é saber se a tática funciona diante de uma ameaça real à sua permanência no cargo.

Seus aliados republicanos não estão muito convencidos disso. Em circunstâncias normais, diante de um processo de impeachment, um presidente reuniria um gabinete de crise, com conselheiros versados em questões jurídicas e políticas.

No caso de um impeachment, aliás, a resposta política é mais importante do que a jurídica — pois a constituição americana não é muito clara quanto aos crimes que podem levar à perda do cargo. A régua para definir se o presidente abusou do seu poder ou não é dada pelos parlamentares, ou seja, pela política.

Dá-lhe lenha

Ao dizer que a China também deveria investigar Joe Biden e sua família (sob a alegação de que o filho Hunter Biden fez negócios com um fundo de investimento chinês), Trump está apenas confirmando a acusação de que se utiliza do poder do seu cargo para pressionar governos estrangeiros a ajudá-lo a perseguir adversários políticos.

Ou seja, em vez de minimizá-la ou contestá-la, ele coloca lenha na fogueira da acusação.

Pode-se imaginar que Trump esteja fazendo isso porque: 1) está absolutamente convencido de que não fez nada de errado, pois pedir ajuda a líderes estrangeiros para desmoralizar seus adversários domésticos é a coisa mais natural do mundo; e 2) tem a convicção de que o processo de impeachment, ainda que avance na Câmara dos Representantes, de maioria democrata, será derrotado no Senado, onde os republicanos têm o maior número de cadeiras.

O problema é que a postura de Trump nos últimos dias confirma a primeira hipótese, mas desmente a segunda. Ou seja, ele está reagindo com tanta fúria e indignação, disparando tuítes e chamando todo mundo de "traidor", que passa a impressão de estar contra a parede, prestes a perder o cargo.

Senado na mão

O fato concreto é que, pelo menos por enquanto, o prognóstico de Trump perder o posto em votação no Senado é mínimo. Por isso, até seus correligionários republicanos estão surpresos com uma reação mais condizente com a de um presidente que se agarra por um fio ao cargo.

Essa reação pode ter o efeito de dar força ao processo de impeachment ou passar a impressão de um presidente desesperado — o que não é nada bom para quem vai tentar a reeleição dentro de pouco mais de um ano.

Trump está dobrando a aposta ou cavando a própria cova?

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.