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Exemplo chileno mostra que novo AI-5 sairia pela culatra

Diogo Schelp

26/11/2019 09h32

Chile

Repressão policial em protestos no Chile (Foto: Pablo Sanhueza/Reuters)

O ministro da Economia Paulo Guedes não podia estar falando sério. Tanto que uma das jornalistas presentes à entrevista coletiva que ele concedeu nesta segunda-feira (25) em Washington, nos Estados Unidos, questionou: "Isso é uma ironia, ministro?"

A pergunta era pertinente. Afinal, Guedes se contradisse ao rechaçar a hipótese de um novo AI-5, minutos depois de insinuar que estabelecer um regime de exceção para punir opositores, como foi o Ato Institucional n° 5, de 1968, seria uma resposta legítima a manifestações de rua que eventualmente vierem a ser convocadas pelo ex-presidente Lula.

Se o governo Bolsonaro está tão preocupado com a probabilidade de se repetir, no Brasil, o que aconteceu no Chile, com protestos em massa obrigando o presidente a ceder a reivindicações radicais, deveria analisar com mais cuidado o exemplo… do Chile.

Os protestos naquele país começaram como resposta a um aumento no preço do transporte público na capital. A repressão foi tão violenta, porém, que outros setores se rebelaram e aderiram ao movimento de rua.

Na Colômbia, ocorreu algo semelhante: em vez de dissuadir, as medidas de repressão intensificaram a ira popular.

Em nenhum dos dois países, é claro, houve a institucionalização da opressão política, como seria um AI-5.

O fato é que sociedades democráticas como a chilena, a colombiana e a brasileira não aceitam mais se curvar a esse tipo de autoritarismo.

Nem à esquerda, nem à direita. Ou será que alguém acredita que a multidão que foi às ruas de verde e amarelo em 2016 pedindo o impeachment de Dilma Rousseff — com exceção de alguns gatos pingados de calças camufladas em cima de um carro de som — aceitaria perder o direito de levantar sua voz contra quem quer que fosse?

Jair Bolsonaro foi eleito em grande parte por uma massa de eleitores que encontrou nas ruas a caixa de ressonância de sua indignação.

Melhor não mexer com esse direito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.