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No mundo ideal, governo deixaria tensões com Congresso para combater crise

Diogo Schelp

10/03/2020 12h03

Bolsa queda

Mulher vestindo máscara passa em frente a tela mostrando dados da Bolsa da Indonésia, em Jacarta, em dia de caos nos mercados mundiais
(Foto: Adek Berry/AFP)

Em um mundo ideal, o governo do presidente Jair Bolsonaro abandonaria a estratégia de confronto com o Congresso Nacional e uniria forças com o Poder Legislativo para enfrentar o caos que se instalou nos mercados nos últimos dias e que ameaça a estabilidade econômica do país. Para isso, porém, em um mundo ideal, o governo precisaria já ter um plano para enfrentar a atual crise.

A julgar pelas declarações dadas pelo ministro da Economia Paulo Guedes, porém, o governo não tem em vista nenhuma ação específica para conter o pânico nos mercados e o risco de cenário de recessão, a não ser repetir o mantra da tranquilidade e manter as medidas que já estavam programadas — ou seja, enviar os projetos de reformas administrativa e tributária (que estão atrasados) e aprovar as PECs emergenciais para reduzir os gastos públicos.

"Temos de manter absoluta serenidade e a melhor resposta à crise são as reformas. Vamos mandar a reforma administrativa, o pacto federativo já está lá, vamos mandar a reforma tributária e seguir nosso trabalho", disse Guedes.

Os economistas têm opiniões divergentes sobre o que o governo deve fazer para conter a crise. Alguns defendem que o governo deve deixar de lado, temporariamente, o ajuste fiscal para dar estímulos à economia, aumentando, por exemplo, os investimentos públicos em infraestrutura. Outros pensam que suspender as medidas para contenção de gastos passaria a mensagem errada e afugentaria investidores — e que o governo, portanto, deve continuar com a estratégia de longo prazo de Guedes, com a aprovação de reformas.

Seja qual for o lado que se escolha nesse debate, em qualquer um deles, em um mundo ideal, o governo estaria usando a oportunidade da crise — e o fato de que a culpa do que está acontecendo pode ser atribuída a fatores externos, como o coronavírus e a guerra de preços de petróleo entre Arábia Saudita e Rússia — para aliviar as tensões com o Congresso e obter apoio para as medidas escolhidas.

As lideranças do Congresso já demonstraram estar dispostas a isso. "A Câmara e o Senado estão prontos para ajudar, mas quem comanda esse processo é o Poder Executivo", disse Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados.

Ou seja, o governo precisa tomar a iniciativa e demonstrar que está realmente preocupado com a situação.

Em vez disso, enquanto o ministro Paulo Guedes diz estar absolutamente calmo, o presidente Jair Bolsonaro está na Florida, nos Estados Unidos, dizendo que o perigo do coronavírus é superestimado (pode até ser, mas seus efeitos econômicos são bastante concretos), levantando teorias conspiratórias sobre uma suposta fraude nas eleições de 2018 (nas quais, vale lembrar, ele foi vitorioso), tuitando sobre uma reportagem de TV sobre presidiárias trans e torcendo para que apoiadores do governo compareçam em peso às manifestações marcadas para o domingo (15), para exibir seu apoio popular e intimidar o Congresso.

Em um mundo ideal, o presidente estaria demonstrando que compreende a gravidade do atual momento econômico, exigindo propostas de sua equipe e buscando alianças para realizá-las.

Mas não vivemos em um mundo ideal.

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Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

Diogo Schelp