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Bolsonaro sonha com estado de sítio para ampliar poderes, diz Marina Silva

Diogo Schelp

28/03/2020 04h00

Marina Silva

Marina Silva (Foto: Fábio Braga/Folhapress)

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede) está em isolamento em sua casa, em Brasília, desde o dia 1º de março, quando pegou uma forte gripe. "Como eu não sabia o que era, já fiquei em isolamento, antecipadamente", conta ela. Na realidade, mesmo antes, em janeiro, quando as surgiram as primeiras notícias do surto de coronavírus, ela cancelou todas as viagens, cinco no total, que tinha marcadas. Uma delas era para participar de evento do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) que estava marcado para acontecer no México. Um dos organizadores, o brasileiro Sérgio Trindade, morreu pela Covid-19.

Diz Marina Silva: "Estou fazendo o que precisa ser feito e o que o mundo está fazendo. Quem não tem respeito pela vida recomenda o contrário. Além disso, sou de um grupo de ultrarrisco. Para quem já teve cinco malárias, três hepatites, leishmaniose, dengue duas vezes, superalérgica, 62 anos… meu Deus."

Do isolamento social, Marina Silva acompanha com indignação a maneira como o presidente Jair Bolsonaro está lidando com a pandemia e vem expressando seu sentimento em vídeos e comentários no Twitter. Nesta entrevista ao blog, ela comenta as decisões do governo, as tentativas de pedir o impeachment do presidente e dá um conselho ao ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta:

Em pronunciamentos e declarações esta semana, o presidente Jair Bolsonaro criticou as medidas de isolamento adotadas pelos governadores e acusou a imprensa de estar espalhando o pânico em relação ao coronavírus. Como a senhora avalia a postura do presidente frente à pandemia?

Diante de uma crise com essa gravidade, com todos os líderes do mundo recomendando o isolamento social de cerca de 3 bilhões de seres humanos, o presidente da república prefere fazer uma polarização entre vida e economia. É uma completa falta de postura. Até o mentor-mor dele, o presidente americano Donald Trump, faz um discurso, mas na prática aconselha as pessoas a ficar em casa. Em uma demonstração concreta de que ele não confia em quem segue à risca o próprio discurso político que ele faz é que o governo dos EstadosUnidos está chamando o pessoal da embaixada americana de volta.

Além disso, Trump está adotando medidas concretas para resolver o problema da economia. O volume de dinheiro que foi injetado para socorrer empresas e o cheque direto na conta das pessoas é, na devida proporção, o que o Bolsonaro deveria estar fazendo no Brasil, agora, em vez de ficar debatendo assuntos que nenhum governante tem autoridade técnica para debater. Quem tem que fazer isso são os cientistas, os sanitaristas, os médicos, os pesquisadores, as pessoas que entendem de saúde pública. Trump joga para a galera, mas, na prática, seu país está tendo que confinar as pessoas e socorrer empresas e pessoas.

Bolsonaro está prestando um desserviço à população brasileira, jogando contra a imprensa, que, neste momento, está sendo um dos canais por onde mais tem fluído a informação para a sociedade, e tentando bombardear o trabalho daqueles com os quais deveria estar se mobilizando para agir integralmente: os governadores e os prefeitos. O que o presidente está fazendo é apostar no caos. Ele quer esconder a sua incompetência. Eu sinto que ele sonha em criar uma comoção social para decretar o estado de sítio, para ter poder sobre tudo e sobre todos. Mas quem não tem autoridade ética e moral não tem como ter poder sobre tudo e sobre todos.

A senhora concorda com as tentativas de iniciar um processo impeachment do presidente?

Esse debate está sendo feito por alguns segmentos da sociedade, mas acho que, neste momento, o que tem que ser feito em caráter emergencial é colocar o presidente no seu devido lugar: em isolamento político. Os governadores têm que continuar o seu trabalho, as autoridades sanitárias têm que continuar fazendo o que está sendo feito, a imprensa tem que continuar informando e Bolsonaro tem que ficar em isolamento político.

As consequências que advirão se as orientações dele forem implementadas são inimagináveis. Como disse o economista Maílson da Nóbrega, o presidente deveria estar contando cadáveres em vez de contar desempregados.

O que está sendo feito agora tem que ser medido sem as paixões da disputa política. A vida não é uma disputa entre a esquerda, a direita ou o que seja. A vida é uma busca política de todos que têm respeito por ela.

O debate do impeachment está sendo feito. Bolsonaro se descredenciou para o essencial do essencial. Uma coisa é não ter competência para cuidar dos empregos, das questões da desigualdade social, outra é não ter competência para enxergar o que há de mais essencial que é a proteção da vida. Ao transformar isso em disputa política, ele revogou o mínimo que tinha como credencial para ser o presidente na prática.

Bolsonaro decretou que templos religiosos prestam serviços essenciais e não devem ser fechados durante a pandemia. Como evangélica, a senhora também considera que é imprescindível manter as igrejas abertas para exercer a religião?

Nós temos fé, mas não podemos ter uma fé vaidosa. Isso quem nos ensinou foi Jesus. Quando ele teve a tentação no deserto, o inimigo tentou Jesus com muitas coisas. A primeira delas foi pegando a sua fragilidade, pois ele estava há 40 dias com fome, e pediu que ele transformasse as pedras em pães. Ele tinha poder para fazer isso. Mas Deus respeita a natureza que ele mesmo criou. Então ele respondeu: nem só de pão vive um homem, e não cairei na tentação de me exibir fazendo o milagre de transformar pedras em pão.

Mas teve também outra tentação, que foi a de querer revogar a gravidade. O inimigo mandou que Jesus se atirasse do pináculo do templo porque, no Salmo 91, diz-se que os anjos fariam algo a respeito para que ele não tropessasse em nenhuma pedra. E o inimigo usou isso até mesmo com fundamento bíblico para que Jesus se jogasse do pináculo. Ele disse olha: também está escrito que não se deve tentar a Deus. Uma fé exibida tenta a Deus. Eu não posso me atirar de um prédio de dez andares e exigir que os anjos me amparem lá embaixo.

Da mesma forma, não podemos dizer: "Olha, pessoas que estão sendo contaminadas, eu tenho um Deus que me protege e não protege vocês." Nesse momento, todos estamos vulneráveis e a melhor forma de adorar a Deus é ajudando a preservar a vida. Cuidando das pessoas para que elas não adoeçam. Cuidando dos seus países para que eles não saiam dessa crise piores do que estavam. Está correta a atitude de muitos pastores de fazer acompanhamento online, de fazer seus cultos pela internet, de orientar suas ovelhas para que elas não se atirem do precipício.

Como a senhora avalia a atuação do Congresso Nacional nessa crise?

Os presidentes da Câmara e do Senado têm dado uma contribuição. As medidas essenciais, com os ajustes necessários, têm sido aprovadas. Acho que eles conseguiram uma solução que dialoga com a necessidade do isolamento social, mas mantendo suas votações. E agora tem que debater o que é mais importante: enquanto as autoridades médicas e sanitárias nos orientam o que fazer para cuidar da nossa saúde, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário têm que dar base de sustentação, seja do ponto de vista legal seja dos recursos financeiros, para que os investimentos sejam feitos em produtos e materiais que dêem suporte para a comunidade médica e para os hospitais. Para mobilizar os recursos técnicos e equipamentos para socorrer as pessoas e, ao mesmo tempo, tentar minorar o sofrimento de quem vai ser privado de seus ganhos e evitar a quebradeira das empresas.

Não por acaso, os Estados Unidos e a Alemanha estão fazendo uma injeção de recursos astronômica tirada dos tesouros desses países para socorrer grandes e médias empresas e pessoas: 2 trilhões estão sendo injetados na economia americana, que vai contar com um cheque de 2.000 dólares na conta das pessoas. O Brasil tem em torno de 300 bilhões de dólares em reservas cambiais, e o que exige o FMI é em torno de 150 bilhões. Nós temos o dobro disso. Uma parte disso tem que ser usada para manter a demanda das pessoas. Elas vão precisar continuar se alimentando, comprando remédio, fazendo aquilo que mantém a vida. Ao mesmo tempo, é preciso dar o mínimo para as empresas poderem sobreviver.

O mundo inteiro está parando. A Índia está parando, a China parou, a Alemanha parou, a França parou. É uma insanidade política e social dar uma ordem contrária ao que o mundo está fazendo para proteger a vida das pessoas.

E a atuação dos governadores?

Os governadores estão surpreendendo positivamente em muitos aspectos, porque muitos estados estão endividados, porque a gente sabe da situação de dificuldade que eles enfrentam — com raras exceções, como é o caso de um estado rico como São Paulo. E, num momento de crise como esse, os governadores, sem a participação do presidente da República, estão se coordenando. Criaram um colegiado e estão se unindo para tomar medidas.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tem precisado equilibrar as decisões técnicas do ministério com as opiniões do presidente e aos poucos vai se queimando junto à opinião pública. O Brasil tem a perder mais se ele sair do cargo ou se ele continuar cedendo ao discurso do presidente?

Para não cometer nenhum tipo de injustiça, ele vinha tendo uma atuação boa e estava orientando o Brasil em consonância com a Organização Mundial de Saúde (OMS). Inclusive os governadores estavam se sentindo respaldados para tomar as medidas que vinham tomando, de promover o isolamento social como única medida capaz de prevenir o colapso. Quem não a adotou entrou em colapso, como ocorreu na Itália e na Espanha.

Mas eu acho que quando ele foi desautorizado em cadeia nacional pelo presidente da República, sem sequer ter participado da formulação da fala sobre a pandemia, isso foi algo muito grave. Na minha opinião, o que o ministro da Saúde tinha que ter feito é o mesmo que Ricardo Galvão (ex-diretor do Inpe que foi demitido por ordem de Bolsonaro no ano passado): dizer que "as medidas são essas, eu não vou me demitir, vou continuar implementando as recomendações da OMS e claro, o presidente tem a caneta, ele faz o que achar melhor".

Mas não se adaptar ao presidente. Se for para Mandetta se adaptar à estratégia do presidente, é claro que isso não fará bem ao Brasil. Ele tem que manter a coerência de médico e de quem estava dando uma orientação que estava sendo seguida e que com certeza contribuiria para evitar o caos.

O que está sendo mostrado aí pelas projeções é Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília consolidando-se como os três epicentros da crise, num país como o nosso que não conta com os recursos necessários, que tem comunidades fragilizadas. Imagina aqui no entorno de Brasília, todas essas regiões pobres, com um sistema de saúde que já se vê colapsado antes de qualquer crise, com graves problemas de atendimento.

Então o ministro Mandetta poderia manter o seu cronograma de trabalho. E deixar para o presidente o ônus das medidas que ele quer tomar ao arrepio de tudo o que está acontecendo no mundo. Ele não pode encolher para ficar do tamanho da irresponsabilidade de Bolsonaro.

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Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

Diogo Schelp